A Guardiã da Ausência
CONTOS


Uma história sobre paixão, perseguição política e escolhas que ecoam muito além da vida.
A Guardiã da Ausência
Chamam-me Arabela, e dizem que enlouqueci por amor. Deixo ao leitor o julgamento daquilo que escapa às minhas palavras:
Certo dia, em uma manhã incomum, despida em meu quarto, via o Sol nascer. Cansada e confusa demais para me vestir e atormentada pelos reflexos que sobraram da noite anterior. Pura e vulgar, a personificação de uma antítese. O som do jazz em minha memória entrelaçava meu cabelo liso que ganhava todo o salão se destacando por sua vívida coloração ouro auroreal. De quantas efemeridades a eternidade é feita? — indaguei. E, por um instante, desejei que o tempo parasse ali, entre o silêncio e a música imaginária.
Havia chegado em casa às 3h da madrugada com um cheiro que não era o meu, com a combinação amassada e a meia-calça tão avariada quanto a própria pessoa que vos fala ébria na janela, pronta para observar o mundo, mas em uma fuga obstinada dele. Senti vontade de rir, de chorar, de desaparecer. E ali, compreendi que voltar para casa nem sempre significava voltar para si.
Atingi a viuvez aos 22 anos, fato invejado por muitas mulheres da sociedade que não se casaram por amor, como foi o meu caso. O estado de viúva concede à mulher algumas regalias, como ir a algumas festas que deixariam escandalizadas as donzelas que, com uma determinação leonina, urgiam para atrair um marido. Meu esposo fora levado pelo mar numa noite de lua minguante. Quantos corpos embriagados já não foram levados pelo mar? Quantos corpos em decomposição já não se encontram encobertos pela manta branca espumosa das ondas? Teodoro nem foi digno de um funeral. Sua vida insignificante fora conduzida silenciosamente ao fim.
Haveria naquela noite um jantar da alta sociedade, onde tais donzelas sussurrariam sobre a minha viuvez e, é claro, sobre a minha elegância. Não me apresentaria com um traje discreto como esperavam que aconteceria, afinal era a minha primeira aparição pública oficial após o falecimento de Teodoro. Meu vestido misturava pele e seda, audácia e delicadeza, impossível de ignorar. O salão ficaria em silêncio absoluto com a minha chegada e todos ficariam chocados e fascinados ao perceberem que eu não buscava aprovação, meu desejo era de liberdade, de me livrar das correntes douradas que a alta sociedade chamava de privilégios.
Era curioso observar a maneira como o luto feminino excitava a sociedade: quanto mais desgrenhada e abatida a viúva, mais piedade recebia; quanto mais vívida e perfumada, mais repulsa provocava. Fui àquele jantar preparada para a repulsa, pois ela me soava mais sincera. Não é que isso me deixasse contente, mas sadicamente me satisfazia.
Já no salão, enquanto caminhava entre as damas e os cavalheiros hipócritas, entre tantos olhares, encontrei um que realmente me enxergava. Aquele olhar estrangeiro, aquele olhar flecheiro, que atravessava as sombras do meu ser... ele me seguia pelo salão e seu flerte constrangia meus passos antes tão seguros. Eu queria segurar a sua mão, mas ainda era cedo.
Ele usava um terno escuro, impecavelmente alinhado, e uma gravata vinho que destoava do luto geral, um gesto proposital de ousadia. A barba, bem feita contrastava com a expressão de alguém que carrega a desordem por dentro. Os olhos de Octávio lembravam o mar em noites de tempestade, e, quando enfim pousaram nos meus, acenderam a memória da madrugada em que fomos cúmplices, fugitivos e amantes.
O jantar, porém, fora violentamente interrompido antes que pudéssemos conversar. Inesperadamente, o som do piano cessou e três homens da Força Pública fardados entraram e, antes que eu pudesse entender o que estava acontecendo, agarraram os braços de Octávio. O delegado, com voz grave, anunciou o motivo:
— Sr. Octávio Carvalho, está preso sob suspeita de envolvimento com atividades subversivas e propaganda comunista.
No Brasil dos anos 30, essa era a acusação que arruinava a vida de um homem. Desde a 1935, com a Intentona Comunista e as tensões políticas que varriam o país, qualquer homem que lesse demais, falasse demais ou pensasse demais era um inimigo do Estado. Intelectuais eram vigiados, jornalistas desapareciam, professores eram silenciados. Pensar era perigoso, questionar era subversão.
Enquanto os oficiais o levavam, o salão se enchia de cochichos, insinuações e medo. Eu permaneci imóvel, o sangue fugiu-me do rosto e, quando ele passou por mim, antes que o arrancassem da minha vista, vi o seu olhar de medo, de vergonha e de adeus. Nós sabíamos, no fundo, qual seria o desfecho. Eu queria segurar a sua mão, mas agora era tarde.
Nos dias que sucederam, eu evitava meu próprio reflexo no espelho, pois não me identificava no meu próprio corpo, estava em ruínas. Vestia-me de preto, mas não pelo luto de viúva, e sim, pela ausência viva de Octávio. Falava pouco, dormia mal, bebia e fumava demais. Estava me sentenciando ao mesmo destino que o meu amado, apesar de esperar vê-lo surgir a qualquer instante.
Foi então que veio a notícia que me dilacerou por completo: Octávio havia morrido na prisão. Disseram que se matara, mas eu sei que ele jamais faria isso. Chorei como um bebê sem o leite materno, chorei como uma criança que cai de bicicleta, chorei como uma adolescente que sofre sua primeira rejeição, chorei como uma mulher que perde um grande amor. Chorei de desespero, de dor, de tristeza e de saudade.
Fui até a janela e observei o céu pálido, sem cor, sentindo um vazio dilacerador. Continuei a vestir-me de preto, não por obrigação, considerando que nosso romance ainda era secreto devido às convenções sociais, mas porque essa cor correspondia à sombra que se instalara em minha alma. Lembrei-me dos olhos dele e me vi condenada a ser, para sempre, guardiã da sua ausência.
A morte de Octávio, no entanto, fora uma farsa orquestrada para que sua fuga fosse possível. Meses se passaram e eu, alheia à verdade, mergulhei em um abismo. O vinho e o fumo tornaram-se meus únicos amparos, e eu vagava entre lembranças e arrependimentos.
Meu amado, por sua vez, escapara da prisão durante uma rebelião, com o auxílio de um guarda subornado. Vagou por semanas, escondido e ferido sonhando com o reencontro, com o meu toque afetuoso e com a promessa de uma vida longe da cidade. Ele transbordava gratidão porque acreditava que eu era a mulher que o mantivera vivo durante o cativeiro.
2 de fevereiro de 1937, quatro meses após sua prisão, Octávio finalmente chegou à minha casa. O mesmo Sol que iluminara a minha pele despida e meus sonhos dourados nascia para anunciar a tragédia. O portão estava entreaberto e as flores do jardim, murchas. Sobre a cama, eu repousava imóvel, com os lábios entreabertos, ao lado, estavam uma taça de vinho e um frasco vazio de veneno.
Ele caiu de joelhos, mas não gritou, apenas tocou minhas mãos frias e as beijou. O silêncio era insuportável. Tirou do bolso um pequeno punhal que carregava desde a fuga e, sem hesitar, cravou-o no próprio peito, murmurando meu nome como uma última jura de amor. Ele sorriu, um sorriso triste, quase sereno, como quem compreende o inevitável fim. Tanta coisa poderia ter sido dita e vivida...
Dizem, desde então, que quem passa pela velha casa na rua Santos Reis ouve o som distante de um jazz melancólico e, entre as frestas das cortinas, jura ver meu vulto dançando. Alguns dizem que meu espectro está ali porque me arrependi, outros dizem que ainda faço juras de amor entre os passos de dança. Como eu disse: há algumas coisas que escapam ao escritor.
Maríllia Albuquerque