A normalização da guerra
REFLEXÕES


Este texto convida você a refletir sobre como enxergamos a guerra de longe, como se fosse algo que não nos atinge. Falamos, opinamos e escolhemos lados, mas muitas vezes esquecemos que por trás das notícias existem pessoas reais, com medo, dor e histórias interrompidas. É uma reflexão direta sobre poder, responsabilidade e sobre o quanto a violência tem sido tratada como algo normal. Uma leitura que provoca e faz pensar.
A normalização da guerra
Acompanhamos as guerras de longe, mas perto o bastante para tecermos opiniões, que, por sinal, são sempre “maduras e coerentes”. Com certa arrogância, acreditamos que as bombas nunca atravessarão as janelas de nossas casas. A distância geográfica cria a ilusão de que estamos moralmente blindados e sentimos que só de pensar no caos e sentir pena das vítimas, já estamos agindo, cooperando.
Comentamos como se falássemos de um jogo de futebol: “Quem ganhará este campeonato?” Escolhemos lados, criamos estratégias, apontamos culpados e apostamos nos vencedores. Falamos em nome de povos que nunca vimos ou ouvimos, de dores que nunca sentimos e de territórios que mal conhecemos por mapas e, enfim, argumentamos e justificamos nosso veredicto.
De longe, tudo parece mais simples: mortos viram número, fome vira estatística, fugir vira imagem e crianças viram anjos. A mídia recorta o sofrimento, edita o horror e nos entrega, digamos, uma versão mais palatável da tragédia, assim, a consciência não se suja, permanece intacta e digna.
Criticamos decisões tomadas sob bombardeios com a serenidade de quem nunca precisou escolher entre correr ou se esconder. O que diriam as vítimas de Hiroshima e Nagasaki? Será que elas tiveram a chance de fazer essa escolha ou foram instantaneamente apagadas do tempo? Seus corpos marcados pela sombra que deixaram nas paredes são resquícios de vidas interrompidas antes mesmo de entenderem que se tratava de um ataque bélico monstruoso.
A guerra tem outro lado pouco mencionado nas reportagens: o dos soldados, não como heróis ou vilões, mas como pessoas que saem de suas casas para lutar por causas que eles mesmos desconhecem ou não acreditam. Eles são obrigados a conviverem com o medo, a morte e a culpa e mesmo quando sobrevivem, retornam incompletos, fragmentados.
A verdade é que muitas guerras não nascem da necessidade dos povos, mas da disputa por poder de poucos. Governa-se pelo ego, pela ambição e pela ânsia de vencer, mesmo que não reste ninguém para celebrar a vitória. Assim, a guerra se revela como um fracasso moral de quem prefere o poder à humanidade, insistindo em se impor pela força, sem diálogo, empatia ou responsabilidade histórica.
A grande pergunta que ecoa dentro de mim é: quem será capaz de preservar alguma humanidade após uma guerra? Somos todos cúmplices, ainda que silenciosos, de um sistema que normaliza a morte alheia sem compaixão. Precisamos entender que a guerra não é um evento distante, ela revela o quanto falhamos como sociedade ao permitir que ela destrua não apenas territórios, mas tudo o que toca, sobretudo o homem.
Maríllia Albuquerque
29/01/2026