Meus guardanapos
CRÔNICAS


Uma narradora transforma guardanapos de bar em abrigo para memórias, dores e poesia. Entre café, observações e rabiscos íntimos, ela vê sua escrita exposta a um estranho — e sente o peso de estar nua diante do mundo. Um texto sobre criação, vulnerabilidade e as histórias que insistem em nascer nos lugares mais improváveis.
Para mim, a maior serventia de um guardanapo é contar histórias. Quantas histórias indecentes um guardanapo sujo de batom vermelho não pode contar, hein? Quanta raiva já não se expressou num guardanapo amassando-o abruptamente? Quanta tristeza já não se debulhou em lágrimas nesse pedaço de papel? E quanta doença já não despejou suas secreções sobre um guardanapo? Doenças que vieram, doenças que levaram...
Meus guardanapos não são tão diferentes, eles estão cheios de poesias, de amor, de memórias de uma escritora. Eles gritam “que minh’alma de sonhar-te anda perdida” e sussurram “voaria livre minha imaginação?”. Se eles fossem levados pelo vento, espalhariam pelo mundo tanta beleza em forma de dor, e também tanta dor sem beleza alguma...
Pensamentos levianos. Soltos em um bar da Rua 9, presos em uma mente sem endereço, vagabunda como o diabo. “Sentar aqui me faz refletir cada coisa besta” – penso eu. Observando os transeuntes, histórias se formam em minha mente, o vazio se preenche e eu pego os guardanapos. Rabisco: “360° de um ponto fixo”. “Como posso, com a pouca visão que me resta, enxergar tanto?”. Sorrio discretamente.
Peço um café esculpido na água, líquido como a própria, brilhante e reluzente, em forma de xícara. Fazer café é uma arte. Os guardanapos da mesa voam e um deles repousa sobre os pés de um homem. Ele pega e lê um dos meus poemas em tom de escárnio: “Farei das minhas histórias, arado para corações férteis...”. Constranjo-me, coro, recolho alguns guardanapos em branco e deixo o local. Na rua, choro, extremamente envergonhada. É como se aquele estranho tivesse me deixado nua diante do mundo. Como já era esperado, um guardanapo me consola, tomando para si mais uma parte da minha história.