O dia 23 de dezembro
CRÔNICAS


Um texto sobre o dia esquecido entre o comum e a festa; um tempo sem cor, feito de espera, que revela onde a vida realmente acontece: nos intervalos.
O dia 23 de dezembro é o dia mais insosso do ano. Ele não é Natal e não é véspera, ele não é vermelho nem verde; não é dia de se desejar paz e amor, mas também não se permite odiar ninguém. Ele não é nem um dia de verdade, afinal o tempo dele passa muito mais rápido.
No dia 23, o que protubera é a expectativa dos dias 24 e 25 de dezembro. Nada mais. Ele apenas anuncia os dias que realmente foram feitos para sermos felizes, gratos e bons. No dia 23 não há magia, não há afeto exacerbado. Tudo é espera.
No dia 23, ninguém faz grandes balanços. Ainda não é tempo de agradecer nem de prometer mudanças. Trabalha-se, arruma-se a casa e responde-se mensagens com menos entusiasmo. É um dia funcional, quase burocrático, mas necessário para a beleza que há por vir.
No dia 23, até as pessoas parecem paralisadas. Não avançam, nem recuam. Ficam suspensas como roupas no varal antes da chuva. Há uma normalidade estranha que se prepara para os dois dias posteriores do calendário. Sorri-se sem convicção, abraça-se com economia. É um dia de passagem, feito de pequenas tarefas.
Esse dia ensina sem querer ensinar. Ele lembra que a vida não acontece apenas nos dias marcados em vermelho no calendário. A maior parte dela não se constrói na celebração ou no luto, mas nos espaços neutros. Talvez seja por isso que o dia 23 me incomode tanto: porque me obriga a encarar o tempo como ele é... continuidade.
Maríllia Albuquerque
30/12/2025