O dono do relógio
CRÔNICAS


Elias vive no automático até que uma conversa banal no ponto de ônibus intervém na sua pressa.
Entre relógios, corridas e uma camiseta verde inesperada, a crônica pergunta: quem está conduzindo sua vida — o tempo ou você?
Elias precisava chegar. Chegar aonde todos haviam dito que era o seu lugar. Com apenas 24 anos, ele corria como nunca. Acordava antes do sol, tomava seu café em dois goles e colocava a roupa de sempre, cinza ou preta. Certo dia lhe disseram que, para não se desgastar tomando decisões inúteis, era melhor ter apenas duas cores de camiseta. Considerando que tomamos cerca de 35.000 decisões por dia, isso ajudaria a aliviar um pouco a carga cerebral.
Sem tempo para questionar suas próprias atitudes, Elias seguia a tratar a vida como uma tarefa mal explicada: fazia o que precisava sem entender o porquê. No ponto de ônibus, Elias demonstrava a agonia de sempre, então uma senhora com olhar melancólico, que parecida detentora de toda a sabedoria, disse:
— Sempre te vejo correndo, moço. Vai acabar se perdendo se continuar assim.
Elias deu um sorriso rápido, sem graça e respondeu:
— É o trabalho, dona. Se não me apressar, atraso tudo.
— O que de tão importante há que não pode atrasar? Ela perguntou ajeitando os óculos. — O relógio, a vida ou você?
— De tudo um pouco. Mas a gente tem que correr porque o mundo não espera.
Ela riu baixinho e disse com compaixão:
— Meu filho, preste atenção: o mundo nunca esperou nem nunca esperará. Mas quem disse que você tem que correr junto com ele?
Elias franziu a testa esforçando-se para entender e respondeu:
— Se eu parar, fico para trás.
— E para trás de quem? — retrucou ela, observando o movimento de vai e volta dos carros. — Todo mundo corre achando que tem uma linha de chegada, mas, no fim, a gente descobre que era só uma esteira.
Elias não soube o que responder. Aquela mulher, que ele via quase todos os dias e nunca reparara de verdade, parecia ter aberto uma fresta no ritmo acelerado que o engolia.
O ônibus chegou e Elias embarcou pensativo como nunca na vida. Se vivesse sem pressa, como viveria? Não conhecia outra forma. Ele não tomou nenhuma atitude radical de mudança depois daquela conversa, mas passou a refletir: se ele era o dono do relógio, então por que o relógio era que dominava ele?
O jovem Elias passou a reparar em pequenas coisas, tão negligenciadas como o som do café pingando na xícara, o bom-dia do porteiro, o vendo batendo na janela do ônibus, o movimento dos passantes do terminal urbano... e tantas coisas mais. Tudo parecia intencionalmente provar que a vida também acontecia fora dos horários e das metas.
Elias ainda corria, é verdade, mas às vezes se via diminuindo o passo, sem motivo aparente, apenas para sentir o tocar do vento em sua camiseta, dessa vez, verde. Não era uma revolução, nem uma mudança milagrosa, mas era o início silencioso de quem percebeu que não se trata de correr contra o tempo e, sim, ao lado dele.
Maríllia Albuquerque