Ubatuba

CRÔNICAS

1/24/20253 min read

"Ubatuba" é um convite para enxergar com o coração quando os olhos estão nublados pelo luto. Uma leitura indispensável para quem busca conforto nas águas da espiritualidade e na certeza de que o amor é a única força capaz de atravessar a fronteira entre os mundos.

Ubatuba

Mar e Ana, os pés descalços oscilando entre a permanência e a mudança, a estabilidade e o movimento, o ficar e o ir, a areia e o mar. Ela vê o mar sereno diante de si. Na imensidão, ela se perde. Pensa: “Dizem que tudo é relativo. Será que a solidão também é?” Nunca se sentiu tão só como agora, com a ausência do pai.

— Shhh... escute apenas, e a resposta virá — o vento sussurra.

— Apenas um par — ela pensa, constatando a falta das pegadas do pai ao lado das suas na areia. Então ela retorna a um estado agudo de tristeza.

Ana e o mar: águas profundas e salgadas fluindo do centro da alma, fluindo do centro da Terra. Ela continua a caminhar, sente que as pegadas retornarão se ela insistir, mas a verdade é que elas nunca se foram. “Viver neste mundo é desafiador, mas se fazer presente estando ausente dele é um trabalho lento e árduo”, diria seu pai.

A tristeza trazida por esta ausência não permitia que ela enxergasse as pegadas dele ainda acompanhando as suas. Ele mantinha seu ritmo calmo e, taciturnamente, olhava para ela com medo de que ela morresse, não de morte morrida, mas de vida mal vivida.

Sentia o cheiro das flores mortas, do café vivo, do chocolate frio, dos livros quentes e daquela colônia amadeirada que lembra seu pai. Aromas que se misturavam com o cheiro do mar, lembranças que se fundiam ao presente molhando o rosto de Ana com as mais genuínas lágrimas de saudade.

Naquele momento, as águas de Ubatuba eram mais salgadas do que as águas de Portugal e, ao presenciarem tamanho desencontro, tornavam-se impacientes, inquietas e bravias; e as areias, impiedosamente quentes. A natureza expressava sua revolta por ver tamanha desconexão. Estava tão evidente que Ana estava tão próxima de seu pai quanto esteve outrora, antes da partida deste, mas ela não enxergava.

Porém, nada debaixo do céu fica encoberto por muito tempo. Planejando sua intervenção, o Universo se reafirmou, proclamando-se Rei, proclamando-se deus. Ana subiu em uma pedra alta e solitária, que vivia à espera das carícias do mar, para alcançar uma visão melhor da paisagem, e, tomada por um pensamento intrusivo, inundou-se de uma forte desesperança, pois a esperança é como o orvalho que evapora ao longo do dia, e a última gota ameaçava secar. Ana insinuava que poderia lançar-se da pedra, como se aquilo fosse mais acolhedor do que a insuportável dor que ela carregava.

— Shhh... sinta apenas — disse o vento.

Então, sentiu a presença da proteção, do amor, do pai. Um canto na boca sorriu sutilmente e indicou que o encontro acontecera ali:

Ana acalmou-se da perturbação da sua alma e, por fim, entendeu que o pai sempre esteve vigilante, a observando e caminhando com ela, no entanto, o desespero e a ansiedade a impediam de acolher e sentir a sua companhia. Por sorte, o Universo, com um desconforto silencioso diante de sua angústia, interferiu para que ela tivesse um dia de lições profundas e revelações que transformaram sua jornada.

Finalmente, a resposta chegou para confortar aquela que recebeu uma dádiva sem igual: enxergar, com olhos marejados, aquilo que outrora não via com olhos límpidos. É curioso pensar que “existência” é apenas uma palavra simplória criada para limitar nossas crenças. Já a palavra “ser”, essa sim, preenche o sentido de tudo, pois tudo o que é, simplesmente é, independentemente de existir. O pai já não existe, mas, sem dúvida, ele é.

Maríllia Albuquerque

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